terça-feira, 9 de junho de 2015

"EU TE ABRAÇO E TE BEIJO..." - Rita Bittencourt

Tenho mania de abraçar e beijar. Parei, fui mal interpretada algumas vezes... Certa vez num desses cursos livres de joalheria, no SENAI, tinha uma aluna, mulher madura, gordinha, quase feia, sem ser, de olhar e aspecto triste, colega de turma. Estava sempre quieta, absorta, trabalhando AVIDAMENTE, arqueada sobre o exercício, como se o escondesse. Lá pro fim do curso, a turma já entrosada, antes do intervalo para o lanche, cheguei perto daquela solidão que ela passava, dei-lhe um beijo no ombro e passei a mão na sua cabeça. Um gesto de solidariedade, de afeto por aquela pessoa tão escondida dentro de si mesma... Pouco depois, no "recreio", estava quase a turma toda reunida. As mulheres conversavam baixo, como se confabulassem e quando me aproximei, todas se calaram, meio assim, "onde coloco minhas mãos"? Dirigi-me ao grupo e ninguém conversou comigo. Saí, sem graça, disfarcei e fiquei pensando, "o que fiz de errado, por que me alijaram? Descobri que foi o beijo gratuito, o carinho, mal interpretado... Françoise Sylvia Perret deve lembrar-se disso pois estava no grupo e no dia seguinte passou-me um texto por e-mail, um estudo sobre a importância do abraço, onde umas pessoas na rua distribuíam abraços gratuitos. Parece-me que isso correu o mundo... Eu que sempre fui tão amada, beijada e abraçada praticava esses afetos gratuitamente quando achava necessário, quando via alguém triste e solitária, arisca, em defesa, sem nenhuma outra conotação que não fosse o de dizer "EU TE AMO COMO AMO O UNIVERSO INTEIRO, COMO AMO TODOS OS SERES, O DIA, A NOITE, EU TE ABRAÇO E TE BEIJO POIS SOU GRATA E FELIZ E QUERO UM POUCO DISSO PARA TI"! O que será que pensaram ou falaram de mim? Pode um beijo, um carinho, fazer mal? Quando terminou o curso, na frente de todos, fiz questão de abraçar Françoise, bem apertado, mostrando a importância do abraço, do afeto e distribuí um poema para todos, que não tinha nada a ver com o episódio, mas que falava de gratidão e esperança.
Posto inda essa semana...

GATO COMEU PASSARIM - Rita Bittencourt

Andei pensando, por que escrevo, às vezes, pra estranhos... Descobri: os estranhos são solidários, isentos, não precisam "curtir" pra inflar nosso ego. O estranho é verdadeiramente sincero. Se gosta, fala, se não gosta, cala-se... É isso que eu quero! E SURPRENDEM-ME! Sempre disse que sou sortuda! Tive o melhor homem do mundo, planejei um filho que dei ao mundo e orgulho-me dele, tive uma mãe invejável, tenho um pai mentiroso pra me alegrar e sincero quando lhe convém, poi...s é o seu jeito... Isento, feliz, pleno, inteligentíssimo, meu companheiro, agora. Cheguei inda há pouco e falei: papai, trouxe uns pastéis, uns pãezinhos, vou fritar uns ovos pra nós, abrir um vinho. Daí, fritando os ovos, comecei a poetar - sempre faço poesias e bebo vinho enquanto cozinho. O de hoje é CASA DE MOURAS, RESERVA, tinto Douro, o que me faz lembrar da minha amiga, cantora das boas, Rita Porto, e seu marido Ricardo, lá da terrinha...
Pois, poetando, queimei os ovos! O papai perguntou-me, o que está escrevendo? Fazendo poemas, papai... E os ovos, minha filha? Ah, meu Deus, queimaram-se!
Vou fazer outros, o pão tá quentinho... Papai falou, sabe, minha filha, não tou com fome, tire dois pães pra mim, mais tarde eu como... Vou pro quarto...
É DISSO QUE SINTO FALTA! O MEU EDINHO GARGALHARIA POIS JÁ O FEZ MIL VEZES NAS MIL VEZES QUE QUEIMEI NOSSAS COMIDAS. Mas papai não é o meu Edinho, é meu pai, do qual cuido com o maior carinho, meu companheiro e meu amigo sincero.
Fiquei triste, aborreci-me? NÃO!
Fritei, novos ovos - amo ovos! - peguei duas taças de cristal quase centenárias, e bebi meu vinho, olhando pra taça vazia que coloquei no lugar do meu Edson , na mesa. E estou aqui escrevendo pra quem quiser ler, pra quem gostar de ler, pra quem gosta de ouvir histórias. O poema?
Nasceu de uma observação, hoje pela manhã, no quintal da casa ao lado... Pensei na Véia Sará, nossa babá, que diria assim, do poema que chamei


GATO COMEU PASSARIM
Passarim, bunitim, olhim pretim, pequenim,
avoou, pra aprendê...
tonteou, caiu no chão,
gato pegô...
Ô dó...
Tô eu, aqui,
cum o coração apertadim,
fraquim, fraquim...

Quem tá com o coração apertadinho sou eu, minha velhinha. Fraquinho, fraquinho...
Estou reaprendendo a ser feliz, na solidão. Onde quer que esteja, obrigada por ter cuidado tão bem de mim! AMOR, AMOR, AMOR!!!

FELIZ PÁSCOA, DEUS - Rita Bittencourt


Como diriam os portugueses, " estou cá, na minha cama , a chorar"... De saudades... O dia foi maravilhoso, com minha familiazinha . A Duda, está linda, foi tudo tão perfeito que nem as batatas fora do ponto para a rostie, empanaram o brilho do dia. A barriguinha da minha nora cresce e Catarina, logo, dará as caras. Fico imaginando um serzinho miúdo, que encherei de beijos e mimos...
Cozinhei para minha família, fazendo um prato que o Edinho gostava e que meus queridos quase imploraram pra eu fazer. Ficou maravilhoso! Estávamos no fogão a quatro mãos - ou seis? - eu e meu filho, e minha Duda ajudando a mexer as panelas. Tudo ficou perfeito! Mas, e o depois, meu Deus, agora que todos se foram?...
Sei que sabes o tamanho dessa solidão já que, presumo, És solitário... não deves ter amigos pra festejar - e festejar o quê?- já que tudo é tão previsível pra Ti. E o que podes festejar, Senhor, com seus filhos em guerra, matando-se, enganando-se, tramando... Não queria ser o Senhor... Tens uma fama de inatingível, as pessoas preferem recorrer aos santos... Até eu, que tanto creio, só recorro a Ti em horas de muita dificuldade, esgotados todos os apelos aos santos... Acho o Senhor muito ocupado e já dissestes pra gente fazer a nossa parte que a Sua será feita... E agora, Senhor, que estou tão só, depois do depois, sento-me aqui, diante dessa maquininha milagrosa pra conversar Contigo... Obrigada pelo tudo que me deste permitindo que eu encontrasse o verdadeiro amor... Tantos nem sabem o que é isso... Mas, perdoe-me, todo o tempo que tivemos juntos inda acho pouco. Fizemos planos de velhice juntos, havíamos acabado de reformar os banheiros, tudo preparado para, pelo menos, mais vinte anos... Aí, o Senhor decidiu que tivemos tempo demais, deve estar com falta de anjos aí no céu e levou o meu Edinho. Já me rebelei, esperneei, e descobri que com o senhor não tem lengalenga. Tá feito, aguenta a barra pois vais fortalecer-se! Eu fraquejo...
E nesse dia que Seu Filho, JESUS, ressuscitou, após morrer para nos salvar, acho que, breve, o Senhor terá que vir à terra e executar essa missão. Estamos perdidos, o mundo arde, as pessoas matam-se, jogam bombas em inocentes, tem pessoas nas ruas rasgando sacos de lixo, famintas, dormindo ao relento. Há horas que espero o milagre, pois, nele, creio, pois já o mostrastes a mim... Sou grata. Tenho fé absoluta embora discorde dos Seus critérios e o Senhor já sabe disso e tem complacência com esse serzinho arrogante que sou eu e que criastes... Sou Sua filha, imperfeita que tanto O ama e crê, mas rebelde, com resposta na ponta da língua, com a pergunta antecipando-se aos acontecimentos... Perdoe-me, não entendo, mesmo, os seus critérios, embora várias religiões o expliquem, até a minha. Mas sou sua criatura... Por que deixastes-me chegar tão perto de Ti se não podes me dar a mão? Por favor, Deus, segure minha mão... Dê-me paz, conformação, resignação, como dizia a mamãe... Humildade ante tanto sofrimento, eu que estou tão amparada e amada... Dê-me notícias desse céu que prometeste-me, um recado do Edinho, da mamãe... Ah, Deus, socorra-me nessa solidão...
Que Sua Páscoa tenha sido feliz aí no céu, a minha foi ótima e passageira, mas temo que terás uma tarefa árdua pra consertar tanto mal feito. Um anjo mau passou por aqui aniquilando os Seus e parece que estão vencendo... Vem logo que a coisa é séria!
Beijos em Maria, em Jesus e em todos os santos. Um abraço apertado dessa sua filha tão precisada, desconsolada, fazendo, das tripas, coração! Amor,
Rita