segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

"VAI COM DEUS" - Rita Bittencourt

      Aquela mulher forte, já não se indigna. Seus olhos enegreceram-se de não ver, ocos, cavernosos...
O  coração não bate por sentir, bate por bater, apenas, por viver, pra sustentar o corpo.
E quase tudo o que ouve é truncado pois anda também ensurdecendo-se. Propositalmente? Está plena, no entanto.
     Sente o cheiro da discórdia, longe, e desvia-se dela. Quando fala, concorda,  pra não despertar olhos chispantes, palavras enviesadas e rictos de faces retesadas, envelhecidas e tristes. Mas PENSA!  E seus pensamentos não são só seus, são frutos do que viu e ouviu, do quanto conheceu aquelas pessoas que queriam falar com sua boca, queriam a cor do seu batom, os seus sapatos altos de cristal, que só ela sabia andar! E  queriam viver a sua vida... Ironia... Envelheceu, entristeceu a alma, curvou o corpo... Fazia-se de boba, ouvidos moucos, balançava a cabeça dizendo que sim, que tá bem, tá bom, o sal da comida tá muito? Precisa de uma batata, vai fica bom, vai consertar o feijão aguado  no jantar, um pouquinho de feijão novo cozido com pouca água, conserta...vai fazer o bife mal passado da próxima vez... vai limpar aquele chão sujo e a poeira  das da portas... vai arear aquelas panelas sem brilho, vai, vai sim! A cozinha "vai ficar um brinco"!  
Ia brigar com o mundo?
Depois, bom mesmo era ir pro seu quarto ler um livro que a transportava para todos os lugares que não queria  mais  ir, mas que, talvez,  muito provavelmente, irá sozinha, num verão qualquer, procurar gente que goste de velhos,  que não falem a sua língua mas com os quais sempre se entendeu tão bem. Com gestos, com o olhar, com o toque das mãos,

com a mímica dos jogos de adivinhar. Talvez fique por lá, anônima... E quando curvar-se de vez e tombar, a cova será menor, menos trabalhosa de abrir pois, arqueada e pequenina, pode abrir cova de anjinho...
Se assim for só não sabe se aquela gente  vai saber dizer VAI COM DEUS!  Prevenida, vai ensinar!

 


 

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